Segurança Europeia: desafios e respostas, CEP e as relações
com a Turquia
Num mundo que, certamente, podemos
considerar como sendo globalizado ou que, pelo menos, segue esse rumo, não podemos fechar os olhos para as problemáticas que daí
surgem. Não obstante todas as benesses que daí advém.
Podemos falar em inovação, em progresso tecnológico, na expansão dos Direitos
Humanos, no mais fácil acesso a bens e mercadorias, nas novas oportunidades, no
aumento do comércio e das relações multilaterais que, de certa forma, tornam o
mundo “mais pequeno” e as populações mais próximas e mais capazes. No entanto,
não é possível não levar em consideração o outro lado da moeda. Ao mesmo tempo
que beneficiamos de uma vasta panóplia de novas vantagens. Assistimos também à intensificação
de antigos e novos problemas, alguns diretamente ligados às supraditas
vantagens, como se de consequências se tratassem.
Neste panorama, é de salientar, a dissolução da barreira do doméstico com o
internacional. Os assuntos internos dos governos transformam-se cada vez mais em
casos internacionais e até transnacionais. Daí a urgente necessidade da
cooperação, da segurança e da defesa. Ora, a União Europeia não é exceção,
muito pelo contrário. O seu papel como ator de demais importância na cena
global torna-a detentora de uma grande responsabilidade, sendo necessário
empoderar a sua capacidade de resposta face aos grandes desafios que se lhe
impõem. É esse seguimento que se tomará daqui em diante.
Comecemos por nos focar nas ameaças internas mais sonantes: o caso do Brexit e o caso de
países como a Hungria e a Polónia.
Relativamente ao Brexit, e seguindo
o objetivo de se analisarem os desafios e respostas da União Europeia face a esta “dificuldade”, são evidentes as
consequências políticas, económicas, sociais e, obviamente, as securitárias.
O Reino Unidos era, de facto, um
poderoso Estado-Membro, garante de muitas vantagens e a sua saída terá implicações difíceis de ultrapassar. Um dos
desafios que se destaca prende-se com a segurança aeroportuária. Na ausência de
acordo entre o Reino Unido e a UE, acordo esse que estabeleça parâmetros para a
nova relação entre ambos. Estima-se que, pelo menos, 6 milhões de passageiros
de voos com partida do Reino Unido, com destino ao continente terão que passar
por procedimentos e controlos adicionais de segurança. Claro está que isto
refletir-se-á no orçamento direcionado para este setor, visto que muitos
aeroportos europeus terão de se equipar devidamente, nem mencionado a questão
dos novos empregos, bem como a formação necessária para tais fins.
Para dar resposta a este desafio,
uma das hipóteses será (com ou sem acordo) a
continuação da “one-stop security” policy. Tendo esta premissa em conta será
sempre necessária também a criação de novas regras de acesso e segurança, quer
no que diz respeito aos aeroportos, transportes marítimos ou rodoviários, quer
na questão da transferência de dados pessoais.
O Brexit tem um lugar de destaque
nas relações bilaterais e multilaterais que
ocorrem no âmbito da União Europeia, o que de certo se prende com questões
securitárias. Com a saída da Grã Bretanha, outros países membros ficarão -ainda
mais- em evidência. Saindo beneficiados em determinadas questões, correndo-se o
perigo de ver certas e determinadas agendas satisfeitas ao nível dos interesses
particulares.
Uma outra questão securitária de incrível importância, relaciona-se com o
possível e mais provável enfraquecimento do setor da segurança e defesa da
União Europeia. Como é de conhecimento geral, o Reino Unido dispõe de
capacidades bastante alargadas nestas áreas, e a sua saída pode afetar não só
internamente a União, como também num contexto NATO. Não esquecendo a questão
da indústria de defesa europeia, uma vez que os britânicos detêm notáveis
empresas dedicadas a estas matérias.
É evidente
que o país em causa deixará também de integrar orgãos como o Comité Político e
de Segurança e o Comité Militar.
A resposta da União quanto a esta problemática, poderá passar por uma
cooperação mais estreita entre os restantes Estados-Membros. Regendo-se por um
bom mecanismo de decisão que vise, sobretudo, empoderar não os EM mais “fortes”
mas sim a Segurança e a Defesa.
No
caso da Hungria e Polónia, o desafio que representam para uma União Europeia
que se estabelece nos pilares da democracia e compreensão, é o facto de se
estarem a tornar mais autoritários e menos democráticos. Este desejo
nacionalista pode tornar-se perigoso na ótica em que se podem quebrar antigas
relações e, com isso, antigos ideais. Causando um “mau estar” dentro da
organização que poderá prever um futuro dramático.
Para tal, são necessárias respostas. Respostas essas que podem passar
por sanções, sendo que serão sempre bastante limitadas. Atendendo ao facto de
que não podem ultrapassar a soberania dos Estados em questão nem a vontade
legítima do seu povo.
Relativamente à questão da NATO, é preciso ter algumas considerações
presentes. É inquestionável que a NATO é a grande garante da defesa coletiva da
Europa, sendo a organização político-militar que mais se destaca. Dispondo de
inúmeros recursos e ferramentas ou, por outras palavras, é a organização mais
bem apetrechada em mecanismos de segurança e defesa.
Não
obstante a sua exponencial importância para União Europeia, apresenta também
alguns complexos que devem ser resolvidos e ultrapassados na medida do
possível. No já referido ambiente pluralista onde se destacam as relações de cooperação
e de (inter)dependência, a questão NATO-UE apresenta algumas tensões. Num
contexto destes, razões de ordem política surgem frequentemente, razões essas
ligadas aos interesses próprios dos países. Às suas matrizes históricas, aos
seus aspetos singulares, às suas ideologias e crenças base, que põem em causa o
bom funcionamento desta parceria.
Uma das grandes problemáticas identificável é a falta de transparência, fruto do
acima referido e, também, o facto dos objetivos, muitas vezes, não serem transversais
às duas organizações. A verdade é que durante muito tempo a NATO encarregou-se
apenas do “hard-power” e a União Europeia do “soft-power”. Esta especialização
diferenciada acabaria por distanciar a UE e a NATO, pelo que ambas devem
manusear os dois aspetos em confluência e num ambiente de extrema cooperação,
completando-se assim.
É de
notar que este cenário de “partilha” torna a relação NATO-UE, como
consequência, muito mais complexa. Assim, surge a sugestão de a EDA (European
Defence Agency) emergir como uma espécie de agente intermediário.
Convém
ainda referir que, neste seguimento, é desejável uma União Europeia que não se
baseie apenas na gestão de crises mas sim que use do conceito de
complementaridade em simultâneo com a NATO, elevando-se a um novo nível mais
eficaz, dispondo de “skills” e “know-how” mais abrangentes.
Algo que devemos ter sempre presente,
é o facto de que a paz e a
estabilidade na Europa não são garantidas, nem na Europa nem em qualquer outra
zona do globo. O século XXI trouxe consigo muitos flagelos difíceis de
terminar, quer pela sua complexidade própria, quer pela complexidade inerente
ao sistema internacional e ao ambiente em que nos encontramos inseridos, ou
seja, ao mundo contemporâneo.
Um dos desafios mais sonantes que a
União Europeia enfrenta é, sem sombra de
dúvida, o terrorismo transnacional que surge sem qualquer aviso prévio e afeta
todos à sua volta. De facto, o terrorismo deixou de estar direcionado apenas
aos Estados Unidos da Améric, para se tornar uma preocupação à escala global.
Desta forma, a União Europeia tem direcionado a sua resposta para a
securitização conjunta do espaço europeu.
Nesse sentido tem-se verificado um
exponencial aumento no setor privado da segurança,
aumento esse que se encontra em estreita relação de cooperação com as
instituições europeias e com os Estados-Membros. Além disso, novas policies
surgem, novos programas e novas relações. Não esquecendo que a “cooperação
prática e operacional” foi, também ela, reforçada. Como exemplo temos uma
EUROPOL mais especializada.
Medidas têm também
sido direcionadas no sentido do aumento da eficácia dos sistemas de informação
e intelligence. E por fim, outro aspeto de resposta europeia face a este
desafio, recai sobre “a redução de pobreza, a resolução dos conflitos e a
reconstrução de governos eficientes em zonas de Estados falhados” (Céu Pinto,
2004).
Uma outra questão incontornável é a dos refugiados e da migração. A
“extended neighbourhood” da União Europeia tem riscos e isto é factual. No
entanto, ao mesmo tempo que é uma ameaça é, também, uma necessidade. Isto
devido às importações e às relações de dependência que se prendem
maioritariamente como o setor energético, bem como com a indispensabilidade de
garantir as rotas de comércio marítimas.
De qualquer das formas é, sem margem para erro, uma questão de maior urgência para
a União Europeia. Enfrentamos atualmente uma grave crise humanitária e securitária
devido ao excessivo fluxo de migrantes refugiados e deslocados, sendo a UE um
ponto comum a todos.
Por mais defensores do Direitos
Humanos que sejamos,não podemos encobrir os riscos e
ameaças que estas questões trazem para o seio europeu, para o core da
União.
É um
facto que as políticas “open doors” acarretam grandes riscos e, por
conseguinte, grandes desafios. À parte da resposta em termos humanitários, o
factor segurança não pode, de forma alguma, ser descurado e as respostas da UE
não têm sido suficientes ou, no mínimo, eficazes. Quando é este o assunto em
causa. Tanto é que, estão à vista as tensões ente os Estados-Membros.
O Pacto Mundial para as Migrações das Nações Unidas, do qual a UE é parte integrante,
emerge como tentativa de resposta. No entanto, a lista de Estados-Membros que
não se engaja a este projeto continua a aumentar. Pelo que a resposta da União,
como um todo, terá que se constituir através de outras propostas. Algumas delas
passam pela recolocação dos asilados e o regresso dos indivíduos que não reúnem
as condições para usufruir do asilo prestado. Há também incrementos nas medidas
de segurança nas fronteiras e pontos-chave, com o objetivo de combater o
tráfico de migrantes. Algo que terá de ser melhor gerido, visto que os
resultados não estão a ser certamente os esperados.
Seguindo a lógica - desafios e respostas - surge um tópico essencial:
os Balcãs. Desde cedo uma zona, no mínimo, conturbada, assolada por guerras,
desentendimentos que perduram até hoje e com economias débeis. Tem como
característica, ser um binómio de importância geopolítica e geoestratégica para
a segurança da União Europeia.
Por isto, o principal interesse da
UE pelos Balcãs Ocidentais está estreitamente
ligado com a segurança do território europeu, tanto interna como externamente.
Esta questão é bastante delicada, existem diversos interesses dentro desta
esfera e muitos deles em choque, uma das razões pela qual a adesão de maior
parte dos países Balcãs é tão dificultada. Por um lado está presente a
influência russa sobre estes territórios, contando com um número significativo
de “simpatizantes” e, por outro lado, de forma sucinta, temos a União Europeia
que de certo beneficiaria com esta expansão territorial, aumentando o seu soft-power
e overall influence.
Convém
referir que é grande a vontade dos governos dos países em questão em
tornaram-se membros da organização, pelo que a resposta europeia segue nesse
sentido e estão ativos mecanismos para que isto se concretize.
As medidas europeias em relação a esta questão visam o reforço do Estado de Direito, da
cooperação no âmbito da segurança e questões migratórias, alargar a União da
Energia aos Balcãs Ocidentais, entre outras.
Por fim, como não podia deixar de ser, a questão energética e a Rússia.
Com o fim da União Soviética a Europa torna-se um parceiro indispensável russo
e desenvolvem-se parcerias, nomeadamente no setor energético.
Foi a partir de 2003, depois da
Cimeira de S. Petersburgo, que as relações
energéticas se tornam marcadamente as relações mais importantes entre a União
Europeia e a Rússia, “assumindo vertentes económicas e de segurança”
(Fernandes, 2006).
A Rússia
é assumidamente um gigante energético, indispensável à União, 30% das
importações de petróleo chegam desse país. Assim sendo há sempre um fator de
risco, pelo que há o objetivo de criação de um roteiro para a cooperação
Energética UE-Rússia, baseado na transparência, desenvolvimento sustentável e
reforço da segurança.
A questão energética é delicada para a UE, pelo que outras
possíveis respostas a esta problemática passam, por exemplo, pela aposta nas
energias renováveis e pela aposta no potencial do Norte de África e nas
ligações com a Argélia, Líbia e Egito. É necessário repensar novas ligações e
colaborações se o objetivo for equilibrar o peso que a Rússia assume no mercado
europeu de energia.
Como contribuições finais deste trabalho interessa abordar mais duas
questões, uma delas a Cooperação Estruturada Permanente (CEP) e a outra, as
relações com a Turquia.
É certo
que a União Europeia deve investir nas questões de segurança e defesa,
principalmente tendo em conta o panorama que se apresenta e, por isso, surge o
conceito da CEP, que introduz a “possibilidade de determinados países
reforçarem a sua colaboração no domínio militar”(Matos Coelho, 2018). A CEP tem
como objetivo a proteção do espaço europeu, maximizando a relevância dada à
defesa. Criticada por ser uma espécie de Exército Europeu não o é. É, sim, um
aprofundar da cooperação entre os Estados-Membros nas matérias em causa.
No que concerne à Turquia, o assunto é complexo. O seu processo de adesão à
UE tem sido matéria de grandes debates e hoje está parado.
Não
será necessário expor a história conturbada do país, mas é de importância
referir alguns aspetos que afetam de uma forma, ou de outra, as decisões que
são tomadas relativamente a este assunto. Assim, temos o problema dos curdos.
Longe de ser uma problemática meramente interna, de facto, o problema curdo é
agora também da União Europeia. Tanto pela diáspora localizada no continente
europeu, tanto pelo facto do PKK obter aí fontes de financiamento, nomeadamente
na Grécia.
Destaca-se ainda a situação do Chipre. A Turquia ocupa o norte da ilha, sendo que
apenas Ancara o reconhece com ato legítimo, o sul é oficialmente membro da
União Europeia. Ora, será então impossível Turquia e Chipre coexistirem como
Estados-Membros, uma vez que não se reconhecem mutuamente.
A questão da Turquia, se não bem gerida, pode desencadear
gravíssimos problemas securitários e será sempre um paradigma para UE. Ao mesmo
tempo que poderá trazer benefícios na lógica da segurança, pois o país dispõe
de relações privilegiadas com o Médio Oriente, que poderiam servir como sendo
uma espécie de intermediário, ou como “tampão para se evitarem crises e
conflitos. Existem também muitos aspetos negativos que terão de ser reparados
para que tal aconteça. À parte dos já referidos, podemos apontar ainda o
desrespeito dos Direitos Humanos e o ceticismo por parte dos Estados-Membros,
nomeadamente no que diz respeito ao peso que a Turquia teria em matérias de
representativamente dentro das instituições europeias.
Bibliografia
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