segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O Serviço Europeu para a Ação Externa é um verdadeiro serviço diplomático?



O Serviço Europeu de Ação Externa é um verdadeiro serviço diplomático?


            A União Europeia desde o início da sua fundação tem uma grande dimensão externa e mantém relações com países terceiros e também organizações internacionais. E caminhando para os tempos atuais, estas relações ganharam contornos mais sofisticados e formalmente estipulados.
Em consequência à atribuição de personalidade jurídica própria, a União Europeia tornou-se num sujeito de direito de internacional, podendo operar no campo de relações internacionais e estreitar vínculos com outros sujeitos internacionais numa base de igualdade, sendo capaz de assinar tratados e adquirir a capacidade de manter relações diplomáticas bilaterais com outros sujeitos internacionais. Embora na prática pouco tenha mudado, este novo atributo acaba por validar, de certo modo, o estatuto de sujeito de direito internacional da União Europeia.
No passado, o mercado comum só existia no papel e não se imaginava que pudéssemos vir a ter uma moeda única forte e estável e muito menos os mecanismos de supervisão, como os que acabam de ser criados para enfrentar a crise económica e financeira e preservar o Euro. Estávamos muito longe da criação de um Serviço Diplomático Europeu ou de uma estrutura de gestão de crises. Na realidade, poderíamos dizer que a União Europeia se assomou contrariamente aos Estados Soberanos. O poder central pretende controlar questões de defesa, soberania, política externa e política económica e fiscal. Ora, a União começou pelo eminentemente prático, pelo possível e imediato, a agricultura e a pesca, a normalização, o comércio e as pautas aduaneiras. Aos poucos, juntando elementos cada vez mais próximos do centro do poder do Estado – a justiça, assuntos internos, política externa e política fiscal. Estes elementos, que já estavam nos planos dos países fundadores, tornaram-se indispensáveis na medida em que se estreitavam os laços económicos, processo que a atual crise financeira e económica obrigou acelerar. 
            Posteriormente, o Tratado de Lisboa, que entrou em vigor em dezembro de 2009, trouxe algumas inovações significativas neste domínio, no sentido de tornar a União Europeia potencialmente mais forte, mais visível, e mais assertiva enquanto ator global, mas, sobretudo, com o propósito de assegurar uma maior coerência no domínio da ação externa. A União Europeia alargou-se, tornando-se num inquestionável pilar do direito convencional internacional. É cada vez mais política e tem aumentado o seu grau de integração e cooperação a cada crise enfrentada. As primeiras décadas do milénio de muito contribuíram a estrutura política global como hoje conhecemos. É de se destacar o ataque às Torres Gémeas de 11 de setembro de 2001 e a queda de Lehman Brothers [1]que deu início a uma das maiores e mais graves crises económicas e financeiras já presenciadas. Com o ataque de 11 de setembro os holofotes viraram-se na direção dos Estados Unidos da América e a sua supremacia era cada vez mais evidente e assomaram novos centros de poder e novos sujeitos de peso no seio das relações internacionais. Também a crise económica e financeira, que se abateu sobre a Europa e os Estados Unidos da América, fez aperceber-se da possível fragilidade dessas grandes potências, que por sua vez fez surgir grande atração pelo crescimento económico da Ásia, transformando-se num motor de crescimento económico global.
            Neste sentido, as relações internacionais tornaram-se cada vez mais competitivas e contingentes e a Europa via-se no risco de perder a sua já conquistada influência no âmbito internacional se não agisse de maneira mais coordenada e coletiva. O novo panorama político, caracterizado por alterações de poder e por realinhamentos globais, conduziu a um complexo processo de adaptação político e institucional da Europa, que se concretizou no Tratado de Lisboa e no conjunto das medidas políticas e institucionais destinadas a enfrentar a crise da Zona do Euro. Entre as inovações do Tratado de Lisboa contam-se a atribuição de personalidade jurídica à União como um todo (e não apenas ao pilar comunitário, como já tínhamos referido anteriormente), e o estabelecimento do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE).
 Para assegurar a coerência, o foco e a eficácia na elaboração e na condução da política externa e de segurança da Europa, o Tratado de Lisboa criou a figura do Alto Representante da União para a Política Externa e de Segurança, com responsabilidades paralelas enquanto Vice-presidente da Comissão Europeia, e um Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE) para lhe dar apoio. Sendo este último um verdadeiro serviço diplomático europeu com o objetivo de gerir as relações diplomáticas com os países terceiros, que serve de braço executivo às decisões tomadas pela Comissão Europeia: o Serviço Europeu de Ação Externa.
O SEAE entrou em vigor formalmente em funcionamento no dia 1 de janeiro de 2011, dispondo de uma sede em Bruxelas e de uma rede global de 140 delegações para representar os interesses da União Europeia. Este trabalha em colaboração com os serviços diplomáticos dos Estados-Membros e a sua estrutura básica é composta em partes iguais por funcionários oriundos da Comissão Europeia, funcionários transferidos do Secretariado do Conselho e por diplomatas dos Estados Membros. A ideia aprovada no Tratado de Lisboa é a da criação de um Serviço que defenda os interesses da União no mundo, tornando a Política Externa Europeia mais coerente e provendo continuidade na representação externa, substituindo a anterior presidência semestral rotativa. O Serviço deve, assim, apoiar o Alta Representante na condução e elaboração da Política Externa e de Segurança Comum (PESC) da UE, bem como da Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD); dar suporte ao seu trabalho enquanto presidente do Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros (FAC) e também apoiar a implementação da vertente externa das políticas internas da União. O Serviço dispõe também de um departamento direcionado para a gestão de crises e planeamento, ao qual pertencem o Estado-Maior da UE[2] e o Centro de Situação da UE (Sitcen) para a condução da PESC.
O Serviço tem também responsabilidades perante o Parlamento Europeu e no acompanhamento das missões de trabalho dos parlamentares a países terceiros e a organizações internacionais. O Parlamento Europeu tem um papel decisivo na aprovação do estatuto do pessoal e em matéria orçamental, bem como no controle político democrático.
O SEAE e as suas Delegações, com funções semelhantes às das Embaixadas, prestam um serviço de coleta, análise e disseminação de informação, aconselhamento e apoio a todos os membros das instituições europeias, incluindo os Estados Membros, transformando-se assim “nos olhos, nos ouvidos e na palavra” da UE com os países terceiros.
Do ponto de vista da PESC permitem ao Alto Representante recolher e processar informações, mas também assegurar a coerência da ação externa da EU.
Do ponto de vista da Política Comum de Segurança e Defesa, o SEAE contribuiu para o planeamento político-estratégico das forças das missões civis e militares, dispondo no seu seio de especialistas nas áreas das forças policias, na área judicial, etc.
O SEAE assume ainda uma especial predominância para assegurar a segurança interna e externa às fronteiras da EU pelas relações de parceria privilegiada que estabelece com a Nato, a ONU, a União Africana e terceiros estados.
Internamente, detém um Centro de Situação da União Europeia, ao qual compete, em cooperação, analisar informação relevante no campo do terrorismo, das armas de destruição maciça, das migrações ilegais e do controlo ao nível do crime económico.
Por último, o SEAE internalizou o Estado-Maior da União Europeia, estrutura com competência para assistir o Comité Militar da União Europeia, providenciando assessoria militar e conduzindo o planeamento estratégico de missões militares da Política Comum de Segurança e Defesa.
No entanto, a relevância de uma instituição é medida por sua capacidade de produzir resultados. Graças ao trabalho estruturado entre o Presidente do Conselho Europeu, o Presidente da Comissão, o Parlamento Europeu e a Alta Representante, apoiada pelo SEAE, a União tem dado uma resposta mais eficaz aos grandes desafios globais, apoiando o multilateralismo, uma política de boa vizinhança que assegure a estabilidade e a prosperidade dos nossos vizinhos, o respeito pela Democracia, pelo Estado de Direito e pelos Direitos Humanos, o desenvolvimento sustentável, a gestão de crises internacionais, a prevenção de conflitos e uma relação mais estreita com os seus parceiros estratégicos. Com este novo impulso, a União Europeia conseguiu obter um novo estatuto nas Nações Unidas, atendendo ao seu caráter “sui generis” de organização supranacional, o que lhe permite ter um papel mais relevante e ativo, por meio da apresentação formal das suas posições e da participação no debate geral das Nações Unidas. A capacidade de ação coordenada na nossa área de vizinhança foi claramente reforçada, sobretudo tendo em vista a resposta dada aos enormes desafios colocados pela Primavera Árabe. A União conseguiu, de forma rápida e eficaz, usando uma visão integrada e em coordenação com todos os seus Estados Membros, apoiar a democracia e também o desenvolvimento económico e social na sua vizinhança ao Sul, envolvendo a sociedade civil, as organizações financeiras internacionais e o setor privado, agregando valor ao esforço dos governos locais e da comunidade internacional.  Criaram-se “Task Forces” e foram nomeados Representantes Especiais, com o objetivo de dar uma resposta estratégica adaptada a cada situação, seja na Líbia, Tunísia, Argélia ou Egito. Intensificaram-se os esforços de mediação da UE na resolução do Processo de Paz do Médio Oriente, com um envolvimento empenhado do Alto Representante no chamado “Quarteto Diplomático”, ao lado das Nações Unidas, dos Estados Unidos da América e da Federação Russa, e em contactos diretos ao mais alto nível na região, visando obter progressos que conduzam a uma solução global negociada para o conflito Árabe-israelita.
No quadro do SEAE, a UE dispõe agora de mecanismos mais capacitados e eficientes para enfrentar situações de crise internacionais e também para a prevenção de conflitos. A União organizou, em vários países da Europa, África e Ásia, 22 missões civis e/ou militares, que, de uma forma coordenada, apoiaram o Estado de Direito e a reforma do setor de segurança, incluindo o treinamento de policias e de forças de segurança, apoio à gestão de fronteiras, combate à pirataria, e apoio humanitário em zonas de crise e conflito. Além disso, cerca de 50% dos esforços internacionais de ajuda humanitária vem da União Europeia e dos seus países membros. Trata-se de uma ajuda essencial à sobrevivência de populações de alguns lugares. A União está agora mais bem qualificada para responder prontamente e de forma coordenada a qualquer emergência internacional.
Finalmente, o Alto Representante, apoiado pelo SEAE tem intensificado as relações com os nossos parceiros estratégicos, cujo apoio e cooperação é essencial para enfrentar os grandes desafios globais em temas de segurança, desenvolvimento sustentável ou na luta contra as mudanças climáticas. A União tem hoje parceiros estratégicos e com todos eles intensificaram-se os diálogos políticos ao mais alto nível, com reuniões anuais, encontros ministeriais e de altos funcionários, onde são discutidas não só as questões pertinentes da relação bilateral, mas também a situação política, económica e social a nível mundial, visando à articulação de respostas comuns aos grandes desafios globais.


Bibliografia 


OLIVEIRA, RUTE ISABEL MÁXIMO DE, O Serviço Europeu de Acção Externa, Tese de Mestrado em Direito Internacional e Relações Internacionais, 21 de Janeiro de 2016 - http://hdl.handle.net/10451/24099 
TRIBUNAL DE CONTAS EUROPEU, Relatório Especial, A criação do Serviço Europeu para a Ação Externa,2014- http://www.europarl.europa.eu/meetdocs/2014_2019/documents/cont/dv/sr14_11_/sr14_11_pt.pdf 
RIBEIRO, INÊS MARQUES , A UE e o resto do mundo: O Serviço Europeu para a Ação Externa- http://janusonline.pt/images/anuario2015/3.6_InesMRibeiro_UE.pdf
COMISSÃO EUROPEIA, Lutar contra a pobreza num mundo em mudança, Compreender as Políticas da União Europeia -  https://infoeuropa.eurocid.pt/files/database/000062001-000063000/000062254.pdf 









[1] Lehman Brothers Holdings Inc. foi um banco de investimento e provedor de outros serviços financeiros, com atuação global, sediado em Nova Iorque.
[2] O Estado-Maior da União Europeia (em inglês, European Union Military Staff – EUMS) corresponde a uma Direção-Geral do Conselho, composta por cerca de 200 civis e militares destacados pelos Estados-Membros.

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